Daniela Rocha

 

065 (1) 

  band.yellow (1)band.red  Daniela Rocha

Não, a Bélgica não estava nos meus planos… Estranho começar um depoimento assim, não? Pois vim parar na Bélgica por conta do trabalho do meu marido. Eu estava feliz no Brasil, era oficial de Projetos das Nações Unidas, batalhava pela conscientização das pessoas contra o trabalho infantil, que hoje não está mais nas empresas e toma novo formato: está nas ruas, quando as crianças são levadas (ou obrigadas) a vender guloseimas nos sinais de trânsito, estão em fazendas, onde trabalham com seus pais nas fazendas para esticar folhas de fumo ou quebrar coco babaçu por horas a fio, ou nas casas de família, onde meninas trabalham como domésticas, muitas delas em troca de comida e um teto. Cada região do Brasil tem uma particularidade, e o fato é que a infância dessas crianças está sendo roubada… Envolvida até o osso nessas questões, eu via muito por ser feito, e grandes resultados quando trabalhávamos em conjunto com governos e sociedade organizada. Por isso sentia que não podia parar. Mas tive que parar, ou pelo menos repensar como trabalharia essas questões à distância, afinal, era momento de nos mudarmos para Bruxelas. Passado o momento inicial de adaptação de crianças na escola (e a triste descoberta que minha filha de dois anos teria que passar um ano sem frequentar uma, por falta de vagas nas creches), passei meu primeiro ano reconhecendo o que é esse país chamado Bélgica. Senti logo no primeiro mês que tinha diálogo com os vizinhos da esquerda, mas não com os da direita da minha casa. Não entendi em princípio a frieza das pessoas (sim, é uma questão cultural, fazer o quê?) Sou paulista, gosto de objetividade, mas um tiquinho de solidariedade ou de simpatia não faz mal algum, faz? Pois é, senti que me tornei um pouco amarga com relação ao que via e vivia. Por isso foi um ano duro, duríssimo, que incluiu minha não aceitação em ter deixado meu trabalho no Brasil, apesar de eu escrever com frequencia para um site sobre o tema. Nas férias de julho de 2008, viajei ao Brasil com as crianças. E foi caminhando cedinho em uma praia de Salvador (Bahia) que eu me reconciliei com a Bélgica. Em uma bateria de exames de saúde, descobri que eu estava somatizando minha tristeza, e que minha tireóide estava trabalhando menos do que deveria. Minha médica alopata com formação em medicina chinesa me sugeriu a cura: cante. Retornei do Brasil decidida a ser feliz na Bélgica. Procurei na internet e logo encontrei o coral Petassa Capricciosa Molto Piccante. Liguei para a diretora, Anne van K. Marcamos um teste para a primeira semana de setembro (à la rentrée). Comecei a fazer yoga com um estudioso dessa arte, Willy Bok. E no mais, resolvi aceitar as diferenças quando vivia alguma situação adversa (foram várias e gastei meu francês nessas horas, e em outras, em aulas que nunca deixei de assistir). Minha audição no coral durou três semanas, até que descobri que já fazia parte dele, junto de um delicioso acolhimento que pela primeira vez vivenciava na Bélgica. O coral passou a ser minha referência no país. E assim, de pé direito, entrei no meu segundo ano de Bélgica. Até o dia em que recebi uma ligação, não, na verdade, um recado telefônico de uma moça chamada Larissa, que trabalhava para uma produtora de TV belga flamenga. Retornei a chamada e ela me explicou que procurava uma apresentadora para uma série de documentários sobre o Brasil para a TV Canvas, chamado Brazilië voor Beginners (Brasil para Iniciantes). Para resumir a história, passei por uma entrevista e fui selecionada, apesar de nunca ter trabalhado em TV antes. A série era dividida em dez episódios de 55 minutos cada. E cada episódio buscou retratar o Brasil contemporâneo nos temas: política, economia, meio ambiente, criminalidade, música, esporte, religião, arte, gastronomia e gênero/sexualidade. Projeto fantástico. Mergulhei em pesquisa, fiz entrevistas prévias com especialistas no Brasil. Lia tudo o que podia ser interessante para o projeto, afinal, eu teria o papel de apresentar o Brasil para um especialista belga em cada tema, que visitaria o país para conhecê-lo. E mais interessante ainda: esse projeto já havia sido realizado na China e na Índia. O Brasil era o terceiro, seguido depois da Rússia (países do BRIC). Foi um belíssimo aprendizado, também para eu redescobrir meu país (passamos por diversas cidades em diferentes estados durante um período que totalizou quatro meses de filmagem). Mas o resultado final (não participei da edição) me deu a sensação de ser uma “leitura belga” da realidade brasileira, complexa até mesmo para nós, que nascemos ali. Esse projeto para TV me levou a outro. Escrever um livro com o mesmo título, Brazilië voor Beginners, publicado em neerlandês pela editora sediata em Antuérpia Witsand Uitgevers. No livro tive meu espaço para escrever sobre os dez temas que vivi e pesquisei. Pude relatar detalhes que não foram ao ar e que para mim eram peças chave. Em um deles, entrevista que fizemos com um ex-viciado e ex-traficante de crack na favela da Rocinha, a sua esposa interviu ao ouvir a pergunta: “O maior problema da Rocinha é o tráfico de drogas?” E ela: “O maior problema da Rocinha é a falta de oportunidade. Meu filho de 7 anos está fora da escola porque não tem vaga. Meu marido não consegue trabalho. É esse o nosso maior problema. Os outros são decorrência desse.” No capítulo sobre meio ambiente, transcrevo minha conversa com um biólogo do IBAMA, que me fez um relato emocionado sobre a pesca do peixe-boi na Amazônia e sobre a prisão de caçadores de macacos entre outras histórias com diversos animais. Nossa conversa se passou no barco que atravessou o Rio Negro para localizarmos uma área de desmatamento. Não foi filmada. Mas cada detalhe do que contava eram para mim pérolas de informação que pude dividir com os leitores do livro. O lançamento do livro e os documentários para a TV me fizeram ser convidada para uma série de palestras, boa parte delas em português, para flamencos alunos de língua portuguesa, outras em francês e em inglês, que segui realizando até meus últimos dias de estada na Bélgica. Pois é… Não, eu não resido mais na Bélgica. Depois de quatro anos e meio em Bruxelas e de ter aprendido a gostar e a apreciar a Bélgica, mudei-me para outro país, por força do trabalho do meu marido. Mas a Bélgica deixou uma marca profunda em mim e em meus filhos. Retornamos ao país após nove meses para uma semana de visita. E uma das melhores sensações que tivemos foi o delicioso sentimento de pertencer.

http://www.canvas.be/programmas/brazilie-voor-beginners/server15b9934ad%3A13266514d70%3A-6ba9 (capitulos)

http://www.youtube.com/watch?v=oMp5-kNd7Xs (teaser )

br voon beginerjpgBrasil para iniciantes

Um pensamento sobre “Daniela Rocha

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s