Breno Brito

breno2 band.yellow (1)Breno Brito

Bahia

A minha vinda para Europa sempre foi um fato esperando a ser consumado. Era uma certeza que eu sempre tive que o meu lugar era aqui, era o ponto que certamente estava esperando ser colocado  no i.

Desde pequeno eu tinha uma fascinação pela Europa. Meus amigos sonhavam em ir para os EUA mas eu nunca consegui entender o porque. Enquanto eles viajavam com os filmes de alienígenas, com as historias de Cowboy, com os desenhos animados…eu lia tudo que podia sobre o Velho Continente, as tradições, as historias, as culturas…tudo me encantava enquanto mais eu lia sobre esse quebra cabeça continental, onde peças totalmente diferentes se encaixam, se sobrepõem e se completam, e eu torcia para crescer logo e sair do Brasil o mais rápido possível.

Sempre tive uma fascinação pela Alemanha e Escandinávia, vir a Bélgica foi realmente um acaso, mas desde o começo me senti em casa, realmente tive muita sorte com as pessoas que conheci desde o começo e que me acolheram como membro da família, além das pessoas que fui acrescentando ao longo da minha caminhada.

Eu nunca tive muita afinidade com o modus “operandis “do Soteropolitano, já que Salvador foi onde cresci e vivi a maior parte da minha vida. Amo a cidade e consigo até me dar bem com algumas pessoas, mas sempre vivi numa constante guerra entre o que eu entendia em como ser um cidadão e o seu dever na sociedade e como as pessoas de lá exerciam essa condição (ou não). Eu não conseguia minimizar os problemas que, de uma maneira ou de outra ,afetavam o meu dia a dia (infra estrutura, transporte, saúde, educação, segurança…), não conseguia relevar , não conseguia entender e não acreditava que a maioria das pessoas nivelavam tudo por baixo para seguirem adiante vivendo. Não! Eu não aceito que violência existe em todo lugar e por isso tenho que aceitar a violência no Brasil. Não! Eu não aceito que todo politico é corrupto e ,por pensar assim, temos que virar as costas para os problemas. Não! Eu não admito que pagar quase 40% de impostos e não ter NENHUM serviço de qualidade em retorno é algo que deva passar em branco.

Mas enfim, na Bahia eu cresci ouvindo que os incomodados que se mudem…e mesmo achando uma Über-idiotice o ditado que “a voz do povo é a voz de Deus”, segui esse conselho e me mudei , se bem que os motivos da mudança foram uma mistura entre a realização de meu sonho e pura necessidade mesmo.

No começo eu navegava num mar de rosas, estava cercado de coisas bonitas, ruas limpas, prédios antigos maravilhosos, carros fabulosos…queria me beliscar mas tinha medo que isso fosse me acordar desse sonho. Mas é claro, nem tudo correu às mil maravilhas, não é porque você ensina um macaco a comer com garfo e faca que ele deixa de ser um macaco, e no dia que me peguei esquentando a tampa do vaso sanitário com um secador de cabelo (cheguei aqui em março) pra poder sentar e fazer o nr 2 com o minimo de dignidade, foi ai que eu percebi que teria que reinventar a roda para poder viver aqui. Alias, ainda sobre causos de evacuação intestinal, e quando eu , apos o término de mais uma de minhas obras de arte, vi que não tinha lixeirinha no banheiro na casa da família que me hospedei (eram belgas). E a vergonha de chamá-los para perguntar onde estava? Seria eu tão estupido que não tinha visto? Onde estava aquele maldito botão que ao apertá-lo, abriria um compartimento em um dos azulejos e recolheria o dejeto com resquícios da minha porção de croquete de batata digerida? E o medo de jogar o papel no vaso e entupir (quem cresceu com uma mãe policiando pra gente não jogar papel higiênico no vaso sanitário, sabe do que estou falando). Joguei o papel no vaso, dei descarga e me peguei com tudo que foi Santo pra ele não transbordar. Ufa!

Enfim, aos poucos fui virando um europeu de pai e mãe e deixando as inúmeras gafes no passado. Desde o começo sempre me fiei com os flamengos, até hoje, eles são  pelo menos 90% do meu circulo de amigos. Tenho de todos os tipos, da maioria porra louca que não esta nem ai pra Bélgica, até os Flamengos Nacionalistas. Me dou bem com todos e sou super bem tratado por eles. Eu nunca tive uma vontade louca de viver no gueto de Brasileiros e acho que foi isso que me ajudou a me integrar melhor. Eu sou da tribo que acha que se você quiser viver no meio de Brasileiros , então fique no Brasil, fica muito mais barato pra você. Eu me recuso a viajar mais de 12hr no aperto de uma classe econômica de uma avião, pagando uma fortuna pra isso e chegar aqui e me amigar só com brasileiros. Não mesmo! Meu horizonte é um pouco mais aberto que isso.

E 14 anos depois, eu ainda agradeço todos os dias por ter dado esse grande passo na minha vida. Vez ou outra bate um banzo, mas não por causa do sol, da praia, do pagode com os amigos…nunca fui disso. Sinto uma saudade visceral da minha família e quando essa saudade bate, me questiono se foi valido deixar quem eu amo para trás, mas basta eu falar com eles que isso passa…e se não passa, eu abro o primeiro site de noticias do Brasil e depois de 5 minutos lendo as ultimas daquelas bandas, eu tenho mais que certeza que fiz a escolha certa.

Me sinto totalmente à vontade na Antuérpia, onde foi e continua sendo meu porto seguro desde a minha chegada. Tenho amigos belgas maravilhoso e mais que tudo, aprendi a gostar mais do pais que muitos deles, eu realmente levo pro lado pessoal quando eu encontro pessoas que falam mal daqui, porque se você fala mal da Bélgica, isso pressupõe que você tinha uma qualidade de vida melhor no Brasil, mas honestamente, quem tem qualidade de vida vivendo com medo de sair sem saber se vai chegar vivo em casa? Quem tem qualidade de vida tendo que trabalhar com um animal de carga, pagar impostos até não mais poder e ainda ter que bancar escola particular pros filhos, plano de saúde pra família, curso de inglês à parte, natação, judô…? E quanta gente que eu conheço que mora no Brasil mas raramente viaja porque não tem dinheiro? Se até para fazer a ponte aérea Salvador – Aracaju é um programa de família a ser feito a cada 2 anos, ir pra Foz do Iguaçu, Pantanal, Porto Seguro então, só depois de ter vendido um rim e recebido o dinheiro cash, na hora.

De que adianta morar no Brasil se você não pode aproveitá-lo? Bom, cada qual sabe qual a cruz que carrega, amo o Brasil mas acho que no momento, ele não me merece.

Larguei a cruz no caminho  9 de maio 2012 às 12:59 Antuerpia

breno

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