Inêz Oludé da Silva

Inez

 

Inêz Oludé da Silva

origem:Betânia Pernambuco

na Bélgica desde data 1976

Algum fato marcante na infância que justifique sua migração?

I- Não surpresa total ,nunca apensei em sair do Brasil, mesmo que desde pequena minhas tias me chamavam de “ciganinha do Egito”

E porque esse apelido ?

I -Não sei, não tinha um motivo aparente , mas cigano é aquela pessoa que vai e vem

E a sua adolescência como foi no Brasil?

Nasci em Betânia mas logo depois fui morar em Custódia que foi uma cidade marcante pois era uma cidade de muitas lutas politicas em 58/59 depois fui morar em Sertânia, foi importante pois foi aonde fiz amigos de adolescência e meus irmãos mais velhos que pertenciam na época a movimentos estudantis secundaristas. Havia um grande senhor, que era como uma especie de guru para todos era como Sócrates para nós ,o Seu Nigro,na época a gente gostava de escutá-lo. Ele foi muito marcante pois nós vimos , pela primeira vez alguém ser preso, logo no inicio do golpe de 64, ele foi preso pelo exercito, a cidade toda ficou em ebulição.

Nós eramos 10 irmãos, 8 homens e 2 mulheres e eu tenho muita sorte da herança cultural que eu tive. Minha mãe era uma mulher de visão achava que todos nós devíamos estudar, nos alfabetizava desde pequenos com cordéis e com a cartilha do ABC e ela contava sempre muitas historias. Meu pai era gostava de arranhar um violão quando chegava do trabalho e fazia “Repentes”. Eu vivi numa região do Pajeú, terra de poetas e cordelistas como Pinto do Monteiro ( Língua de cobra) que me trouxeram influencias culturais quem o ouviu não passa pela vida “bestamente”. Estes são os ensinamentos que eu considero que ficaram a para a vida e que eu transmito através de minhas artes. Eu acho que tive uma sorte e um aporte cultural muito grande de meus pais e que são como uma estrela guia uma estrela de proteção para mim.

Logo depois nós fomos para o Recife . Meus irmãos já estavam la estudando na faculdade e minha mãe decidiu que todos nós também iriamos para lá .

Cheguei ao Recife aos 14 anos em plena ditadura na época da manifestação pela morte do Padre Henrique foi a primeira manifestação que assisti na minha vida com D Élder Câmara e isso marcou muito a minha historia e a minha vida. A partir dai eu me envolvi no movimento secundarista . Eu sempre fui muito ligada a justiça , meu senso de justiça era muito forte e eu sempre fui muito rebelde e tinha capacidade de liderança, e por causa dessa liderança e pelas minhas molecagens eu sempre tinha problemas na escola secundária com varias ameaças do diretor da escola de me entregar ao exercito.

Conheci meu primeiro namorado, a sério,que depois se transformou no meu marido, o Abizafe e com ele a militância aumentou ,pois conheci pessoas da universidade católica da casa do estudante de pernambuco do colégio Nóbrega, e todo esses entorno da rua da aurora no recife era ligado ao movimento estudantil e de outras escolas .Ele foi preso no Recife pois era militante do PCBR. Ele foi preso e torturado aos 17 anos e eu nessa época não fui presa mas fui visitá-lo na prisão Eu nunca fui ligada a nenhum partido, sempre fui tipo anarquista sem ligações a partidos políticos ou religiões, a coisa da liberdade sempre foi muito importante para mim eu desde menina nunca fui ligada a nenhum tipo de cabresto. Mas serei sempre de esquerda, isso claro! O processo dele foi bem difícil, foi em 1971 foram em torno de 22 pessoas presas O exercito queria tipo dar um exemplo fingir que tinha um processo normal, eles foram defendidos pela Dra Mércia e outros advogados que ousavam desafiar os tribunais de exceção dos militares,e eles saíram pois não tinha provas contra ele. Depois as coisas pioraram em Pernambuco , mas nós não estávamos mais lá, nós partimos para o Chile separadamente. Cada um por um caminho diferente.

Sai do Brasil num dia de carnaval com 19 anos,vestida como um menino e com o cabelo bem curto, vestida de homem , quando cheguei na Argentina fui roubada me levaram tudo ,eu fiquei com uma nota de 2 dólares no bolso, que na realidade era uma especie de talismã que meu irmão Mauel tinha me dado, eu peguei uma carona com um casal simpático que me levou até o Chile. Cheguei uma 8 horas da noite em Santiago.

Eu sempre acreditei que eu tenho uma “estrela” uma , proteção dos ancestrais muito grande e por intuição eu me dirigi a uma moça na rua e pedi informações, sobre como conseguir um local para passar a noite. Era uma chilena do Partido comunista,apaixonada por brasileiros que me levou para à casa dela, onde tinha a família, marido a mãe dela, e lá fiquei algum tempo Ela me ajudou ,fiquei um mês na casa dela. Depois ela me inscrevi na faculdade de economia, que na realidade não me interessava muito, pois eu sempre fui ligada em cultura e depois estudei linguística. O Abi chegou após 4 meses . Ficamos um ano no Chile, e logo houve o golpe do estado, nós entramos de força na embaixada Argentina, dez dias depois do golpe, as outras embaixadas estavam repletas de refugiados de todos os lados e não havia outra com disponibilidade. Fizemos carreira para passar entre os 2 carabineiros que estavam no portão, o Abi conseguiu entrar, mas eu fui pega pela barra do poncho, me deram um monte de porradas e não consegui entrar. Um casal de diplomatas franceses me salvaram a vida e me levaram para ao hospital, no outro dia eu percebi que o muro do hospital era o mesmo da embaixada, sai, comprei umas botas de alpinista e pulei o muro e cai do outro lado, do muro da embaixada. Foi uma festa para aos companheiros que tinham amarrado o Abi numa coluna porque queria sair para ir me procurar. Dois meses depois fomos levados pelos militares argentinos para a Argentina. Ficamos 3 anos lá, dos quais 1 ano na prisão, eu em Vila Devoto, em Buenos Aires e ele foi par ao sul da Argentina. Eu sobrevivi o meu destino foi um pouco mudado mas não determinado e de lá fomos expulsos por decreto militar, para a Bélgica Graças a amigos anarquistas uruguaios e Anistia internacional

Eu percebi que os militares semearam um “grão de morte” dentro de nós e o meu trabalho da vida inteira foi impedir que essa semente do mal vingasse. Transformá-la em vida era minha obsessão E consegui!: estou viva, de pé e contando a história. Minha obsessão agora é rir disto tudo. Hoje eu pinto, toco violão, escrevo poesias, contos, organizo exposições e todo tipo de manifestações culturais, a minha vida é arte, eu pinto eu danço e isso me ajudou nesse processo de parir esse grão de vida. Hoje eu estou levando minha exposição para ao Brasil, para a minha cidade, de onde saí como filha pródiga e volto como liberta do passado e prodígio. Viva Eu!!

E como e quando vocês chegaram na Bélgica?

Eu não acredito em horóscopo, nem em destino ,e eu acho que tudo que se passou comigo tem muito a ver com a questão do racismo com a história do Brasil da escravidão a minha vida se permeou nessa questão do racismo, por isso hoje eu estou desenvolvendo uma exposição sobre a escravidão, há muito tempo que eu já trabalho com isso.

Aqui na Bélgica logo que eu cheguei eu era muito assediada na rua por ser diferente exótica, as pessoas me perguntavam se eu era negra ou branca, porque eu tinha cabelos crespos e o nariz afilado e isso me tocou muito nessa questão do racismo. Por ter sempre sido muito descriminada na infância no Brasil e por ser uma pessoa muito altiva e com uma postura mais de orgulho de ser neguinha, eu sofri, pois que eu não aceito ser subalterna, e comandada e isso sempre me causou problemas.

Eu cheguei aqui sem saber uma palavra de francês e fui aprender e aprendi muito rápido em 8 meses eu já falava perfeitamente e isso causava estranheza, quando eu ia procurar emprego por exemplo eu era discriminada. E eu nunca aceitei ser subserviente e ser tratada discriminadamente como estrangeira. Eu sou brasileira e nunca quis deixar de ser e continuo sendo em qualquer lugar que eu esteja. Eu nunca quis ser belga eu sempre quis ser brasileira e ser respeitada mas eu sei ver o que existe de interessante na Bélgica ou no país que eu estiver, pois tenho bagagem cultural para isso , para fazer escolhas.

Eu cheguei na Bélgica num dia de sol saindo diretamente da uma sinistra prisão Argentina. A Bélgica foi me buscar e eu sou muito agradecida e reconhecida por isso , mas eu não vim para cá por acaso, eu fui trazida para cá. A primeira impressão que eu tive foi excelente, estava repleta da experiencia terrificante que foi a Argentina. Até hoje quando pinta uma réstia de sol, eu corro na rua, vou pra Grand-Place me extasiar com a beleza da vida. Quando chove eu saio para me alegrar, pois sou do Sertão e chuva lá é benção! Mas nada me deu mais o sentimento de existir, que de ter tido algumas horas de escala em Dakar, no Senegal. Fiquei fascinada e aí sentei minhas origens.

E como se deu esse processo de vocês virem para a Bélgica?

Foi devido a campanhas de minha mãe, familiares e amigos no Brasil, da Anistia Internacional, por campanhas aqui na Bélgica, Suécia, Italia, Espanha, França por varias pessoas amigas, como Julian Rei, os irmãos colorados , o Antônio Lira e outros. Nós fomos recebidos pela Igreja Reformada de Bruxelas, do Botanique. Fomos colocados numa lista de 150 presos chilenos, pois não houve na época e não havia apoio internacional para os presos argentinos. Na época me receberam muito bem A igreja ficava na rue de Sabloniere, no Botanique e o pastor se chamava Marc Dandoy. Nós saímos da Argentina sem saber para onde vinhamos e eramos acompanhados, até dentro do avião, para todo lado como se fossemos terroristas perigosos, até para ir ao banheiro tínhamos escolta. Chegando aqui na alfandega belga ,eles nos mostraram uma direção com o braço, indicando a direção que nós devimos seguir e mais nada, não nos acompanharam , e nós fomos seguindo o caminho, só percebi que estava livre umas 4 horas depois.

Do lado de fora existiam pessoas com cartazes com os nossos nomes, que não falavam português nem espanhol, e nós não sabíamos o que era, pensamos que fossem guias turísticos que estavam querendo fazer propaganda de algum hotel, tipo nos oferecendo hospedagem, eles diziam venham conosco por gestos e eu não entendia nada, mas finalmente resolvemos ir com eles sem nem saber para aonde. Pois também não tínhamos outras escolhas Quando chegamos o pastor nos entregou um chaveiro da porta de um enorme sótão habitável, e o chaveiro tinha uma propaganda de hotel, ai realmente pensamos que aquilo era um hotel e pensamos: vamos dormir aqui e amanhã a gente procura um outro lugar pois deve ser caro e não vamos poder pagar isso.

No dia seguinte o pastor se apresentou por meio de sinais No começo eu não entenda que ele mostrando o dente e o dedo estava dizendo o nome Marc Dandoy. Mais tarde entendi que dan é o son de dent (dente) e doy é o som de doigt (dedo). Apresentou a esposa Arlete e o filho e disse: Arelte, Marc Inêz e Abi “rendez vous E eu imediatamente pensei no sentido da palavra em português, pensei lascou, a coisa aqui é sexual , um lugar de encontros, como se utiliza no Brasil, os caras são de lascar, mal chegamos e já estão nos propondo suruba. Nos levaram para encontrar os outros integrantes da igreja. Depois vieram os companheiros do Seul, que era a associação que cuidava dos exilados e ai conseguimos nos comunicar e entendermos melhor do que se tratava.

Porem eu resolvi explicar a eles que nós estávamos com um problema pois apesar de não termos dinheiro nenhum nem para pagar o hotel, não íamos nos submeter a nenhum (rendez-vous) para pagar a nossa estadia. E o Juarez em vez de nos explicar o que isso significava, nos levaram a crer que aqui é assim mesmo, ajoelhou tem que rezar. E assim mesmo, nós todos passamos por isso,que não tinha jeito que nos tínhamos que nos submeter, mais cedo ou mais tarde ao tal rendez-vous. Nós ficamos super desconfiados saíamos de manhã da casa do pastor e só voltávamos a noite com medo que eles nos propusessem alguma coisa nesse sentido.

Como se passou a sua integração sociocultural na Bélgica?

Eu fui muito ajudada pelo pastor, depois fizemos amizade com um padre basco,Padre Eduardo, ele nos ajudava traduzindo tudo para nós no inicio da nossa estadia e nos ajudou muito aqui ele parecia o Fidel Castro, tinha uma enorme barba , andava com outros padres e freiras de esquerda, todos bascos. trabalhava na igreja de Jeu de Balle, nos divertíamos muito na missa dele. Logo fui estudar Francês integralmente eram 8 horas de curso por dia durante um ano, acabei fazendo o curso de professorado da Aliança francesa, ensinei no Berlitz, na Aliança Francesa e me especializai em ensino do português, desde então ensino aos belgas a falar e conhecer nossa cultura. Na parte cultural eu nunca tive nenhuma dificuldade de integração, tenho muitos amigos de todas as nacionalidades, sobretudo africanos. Sempre fui curiosa e observo tudo à minha volta.

Na Bélgica eu nunca deixei de ser e me sentir brasileira , assim como em nenhum outro lugar do mundo tanto que só solicitei a cidadania belga a apenas 3 anos por questões mais administrativas, digamos que fiquei ansiosa quando vi que a Bélgica estava ameaçada de ser partilhada em 2 países. Hoje eu tenho dupla cidadania Eu estive no Brasil em 1980 tentei viver lá novamente um ano, mas não me adaptei.

E quanto ao Brasil algum plano?

Agora que completo 40 anos fora do Brasil,em janeiro completei 60 anos de vida atribulada, sou uma senhora centenária, se juntamos tudo, estou voltando ás origens , vou fazer minha primeira exposição no Brasil esse ano. Referente ao tema que me apaixona a muitos anos, mas que no momento esta pronta para ser exposto que é a Escravidão.

Meu trabalho sobre isso começou a há 20 anos quando tive um sonho sobre a união entre o Mar e um Rio onde via minha mãe vestida metade de preto e metade de branco, num local onde mortos e vivos se encontravam. Uma espece de “profeta” fazia um gesto e o mar secava e eu me via na africa onde apareceu uma figura semelhante a Exu com um embornal e varias cabaças pequenas penduradas, num local onde eu dancei muito numa floresta que me parecia ser no Senegal. Eu levei este sonho à sério e fui aos poucos percebendo que me dava uma finalidade de vida.

A partir dai eu resolvi viver o meu momento africano de origem. E eu resolvi regatar essa cultura negra que existe em mim e pela qual eu sofri enormes preconceitos. Aos sete anos eu fui expulsa de uma escola pois a professora dizia que não queria uma “macaquinha” na classe dela Meu irmão, 1 ano mais velho do que eu se zangou e correu atras dela pra dar-lhe uma bolacha. Correram tanto em torno do birô que o sapato dela saiu do pé, meu irmão pegou-o e jogou-o no telhado. Ela ficou histérica e começou a gritar pelo irmão que era o diretor. Foi uma risadagem geral porque ela corria e gritava “ ai, eu quero um copo de garapa com pipoca”. Então o irmão que tinha um bigode do tipo vassoura chegou e falou: expulsos, expulsos! A partir deste dia, eu fiquei com o sentimento da injustiça dentro de mim.

Na Bélgica quando eu cheguei era chamada de “Exótica “ isso me fazia mal eu me sentia agredida, isso tudo foi criando um min uma consciência da historia da escravidão, eu ria do humor negro que faziam que era um puro clichê sobre o racismo e passei a escrever sobre isso e depois a pintar também Eu estudo arte à 20 anos, eu comecei a pintar aos 40 anos. Eu fiz auto terapia, pois tinha condições para isto, e também nunca achei que devia me confiar a quem quer que seja. Em 94 a memória da prisão voltou muito forte à tona, e eu fiquei vendo e ouvindo tudo de novo . Fui buscar minha alma no fundo do poço e os trabalhos sobre a escravidão que recebeu o Label Unesco em 2004, sobretudo a minha exposição sobre o tema dos Orixás, me deram um sentido da vida e a direção da resistencia

Hoje eu me imponho como artista multimédia, e estou contente com o que eu faço , não tenho o que reclamar tenho obras que participaram em mais de 30 museus pelo mundo a fora, Africa, Europa, EUA, Unesco, Parlamento Europeu, dezenas de galerias, na ONU. Só o Brasil que não me dá bola. Vamos ver o que sucede com a “macaquinha” no país do racismo cordial com a minha primeira exposição no Brasil, levando justamente uma exposição tapa na cara como é esta. A exposição sera apresentada em vários estados nos museus,primeiramente no museu da Abolição do Recife, em seguida no Museu da imagem e do Som de Alagoas, terra de Zumbi, outros museus já entraram em contato comigo, estou esperando mais propostas, quero itinerar com ela pelo mundo. E na minha cidade Sertania esta tendo nesse momento uma homenagem a mim pelo dia da mulher

exposição de brinquedos populares 1 de outubro de 2013 consulado geral do Brasil na Bélgica

cinderelas20IMG_1368                                                                            

 

 

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