Antonio Barbosa Lira

antonio lira

Entrevista Antônio Barbosa Lira

Nascimento Recife Pernambuco 1946

Antônio B Lira viveu no Recife, até a adolescência.Sua família era toda ligada ao PCB ( partido comunista brasileiro) sua primeira passeata se deu aos 7 ano de idade . Desde jovem viveu e  conheceu muitas pessoas ligadas a movimentos políticos de esquerda no Brasil, principalmente e no Rio de Janeiro onde a família era comunista e inclusive citou um de maior importância para ele na época se chamava “ Pedro” e tinha pertencido à coluna Prestes ,que foi fundamental na sua orientação politica e ligação a movimentos operários e que  lhe dava a revista do movimento operário para ler.

_Meu pai era ferroviário e representante sindical no sindicato dos ferroviários do nordeste. Nos anos 50 e 60 ele foi eleito para ser vice presidente do sindicato e como sempre teve ambições de melhorar de vida e de status social  ele voltou aos estudos ,se formando advogado alguns anos depois, sendo assim um exemplo para toda a família paterna no sentido de seguir uma vida universitária.

_Entre os 15 e 17 anos minha avó se mudou para o Rio de janeiro,e como era alguém que me era muito importante e tinha muitas ligações afetivas, vim morar também no Rio e vivi o golpe no RJ. Durante esses 2 anos  ela viveu em Padre Miguel um subúrbio da cidade,e voltei ao Recife e aos 18 anos onde fui  obrigado a fazer serviço militar em pleno incio da ditadura . Uma grande desilusão foi durante o período do exercito pois como jovem e impetuoso eu discutia politica no quartel, o que me custou muito e o titulo de jovem rebelde ,quando vi muitas torturas acontecendo sem poder interferir em nada. Um dia eu tive uma enorme discussão com um superior que por pouco não terminou em uma catástrofe, quase atacando o superior. Tentou discutir algumas ideologias durante o período de quartel, onde a maioria dos superiores eram formados pela, “ escola do Panamá” uma linha ultra conservadora e dura do exercito brasileiro, o que me levou a ser expulso do exercito ,e devido a falta do certificado militar não conseguia empregos e meios de vida. Voltei ao Rio de Janeiro e me liguei também ao movimento do partido comunista local ,principalmente a um Tio Barbosa que havia fugido do Recife na época da intentona comunista e que vivia em Padre Miguel aonde organizava um dos blocos carnavalescos mais conhecidos na época o “Bacalhau na Vara” la desfilavam com um estandarte que tinha um grande bacalhau pendurado durante todos os dias de carnaval e na quarta feira  ele se transformava em bacalhoada.

-No dia 1 de abril o dia do golpe militar tive uma das primeiras grandes desilusões com os Partido Comunista brasileiro, pois esperava que o grupo do PC fossem fazer uma grande manifestação na rua, o que não ocorreu, foram inclusive dissuadidos a voltar para casa e a não houve muita resistência inicial da esquerda , a única resistência foi o Pedro que conseguiu o fechamento do comercio local no subúrbio de Padre Miguel. .

-O que houve foi a clandestinidade para todo mundo , permaneci com a avó na casa de alguns membros da família, escondidos em torno de uns 20 dias. Nessa época o tio e um primo, foram presos e despareceram por um mês e pouco , sendo após isso liberados de retorno . E o Pedro esse desapareceu, nunca mais se  teve noticias dele.

A ditadura, alijou o congresso e os quadros principais e o que restou eram grupos pequenos que eram fáceis de alijar .O tempo foi passando veio a necessidade de estudar e trabalhar para ganhar o próprio sustento e ajudar na família ,o que me levou a continuar a vida trabalhando de dia e estudando a noite o que deixava pouco tempo de sobra para a militância politica intensa. Nessa época havia o mito da revolução cubana , participei da passeata dos Cem mil no centro do Rio, vivia uma clandestinidade politica , mas não cultural .Tinha uma vida cultural muito rica ,adoro cinema e teatro, participei dos movimentos artísticos mas não de todos os movimentos políticos de oposição a ditadura ,que ainda existiam na época.  Mesmo assim passei por vários tipos de repressão, como o fechamento da sala aonde estudávamos para o vestibular, numa especie de cursinho que ficava numa sala alugada por um grupo de estudantes , localizado no centro da cidade no largo da carioca , na rua senador Dantas , e depois uma sala próxima ao teatro municipal, onde um belo dia  a sala apareceu inteiramente destruída pelo DOI -CODI ,alegando ser um local de reunião subversiva por alguém que foi infiltrado. Fui então estudar na biblioteca nacional e fiz vestibular para historia na UFRJ( Universidade federal do RJ) e fiquei  na lista de excedentes esperando longamente uma vaga. Comecei depois a estudar economia na Gama Filho.

-Sempre com muito medo de ser preso a qualquer momento ,a cada vez que havia um controle no ônibus que me levava para casa e que passava na vila militar era um susto ! Não havia mais espaço politico para se viver no Brasil .

-Resolvi  então que iria estudar em Moscou pois o Instituto da União Soviética no Brasil que continuava funcionando normalmente mesmo na época da ditadura fornecia bolsas de estudo. Estudei russo, fiz os exames e fui aprovado e finalmente quase aos 24 anos em torno de 1967/68 fui morar no “paraíso soviético” durante quase um ano e meio. Saindo do Brasil com um “visto de estudante”, carimbado fora do passaporte.

-Após esse tempo em Moscou não existia mais chance de voltar ao Brasil,sem ser preso ,pois mesmo lá existiam pessoas da embaixada americana onde íamos ao cinema e cubana e da embaixada brasileira que controlavam e informavam ao Brasil quem estudava por lá. Um amigo Pedro que estudava comigo em Moscou, tentou voltar foi preso e torturado na volta .Ele era da classe media baixo e Moscou era a única chance dele estudar, e após conseguir sair novamente lhe enviou um cartão postal de Lisboa o prevenindo que eu não fizesse o mesmo, e que se pudesse mandasse buscar a ex mulher que lá tinha ficado, pois ela também corria riscos. E fui ficando na Europa, sai da URSS e fui então viver na Suécia durante algum tempo e como tinha duas amigas chilenas que também não puderam também retornar ao Chile e moravam em Bruxelas ,vim para Bruxelas e finalmente chegei  aqui em. 1975 e fui ficando por questões pessoais casamento , filhos etc

E a escolha foi também porque aqui existiam brasileiros com grande expressão politica como o atual deputado Wladimir Palmeira e o líder sindical recém-falecido, e uns dos fundadores do PT , José Ibrahim .A casa da América latina era muito importante e o local de base dessa luta até  1979.

BÉLGICA

_Na Bélgica existia na época um comitê em que varias pessoas exiladas e de todas as nacionalidades e varias correntes politicas diferentes , era uma hegemonia ,trabalhavam juntas e o  objetivo principal e comum era a anistia a presos políticos , lutar contra a ditadura implantada em grande parte da América do Sul onde a meu ver o Brasil foi apenas um balão de ensaio, diferente da ditadura do Chile e principalmente da Argentina onde muito mais pessoas morreram e sofreram consequências até hoje não esclarecidas. No Brasil não houve resistência .

Eu  nunca se filiei  a partidos políticos apesar de ser simpatizante do PT ,no Brasil ,pois não  sou  partidário do radicalismo e do regionalismo de partidos políticos O comitê brasileiro reunia pessoas do PRMR8 do PS do PC  e mesmo gente não filiada a partidos como era o meu caso. A ideia nos anos 70 era de fazer uma greve de fome aqui para chamar a atenção do Brasil ,que acabou não acontecendo porque as ações no Brasil foram para outras direções, o objetivo comum era o fim da ditadura e a anistia .

Vida e família na Bélgica: Aqui na Bélgica se encontra toda a minha família meus 4 filhos Os três maiores em idades variam entre 36 e 26 anos e o mais jovem com apenas 5 anos. Eu já falava Frances , mas aperfeiçoei aqui, me integrei completamente a cultura e acho que a integração do imigrante parte do aprendizado da língua e da cultura .Se você não compreende e se comunica aqui na Bélgica ,em uma das duas línguas ao menos, você não se comunica com a sociedade que vive, é impossível se integrar .É preciso viver numa sociedade para poder entender e diminuir os clichês dessa mesma sociedade.

As minhas relações sociais aqui são mistas , com europeus em geral atualmente eu tenho muitos amigos na comunidade Portuguesa , antes eram os trabalhadores atualmente do mercado comum europeu e eu também vou ao “mercado de midi” para falar um pouco de árabe com as pessoas

Trabalho na Bélgica atualmente Eu estou aposentado Eu estudei economia na Rússia ,mas aqui trabalhei como tradutor e interprete,muitos anos , trabalhei também em algumas associações como a OXFAM ligados a um projeto de cooperação e desenvolvimento da Argélia ,  na Fiat no serviço de informática , e cuidei também das minhas filhas, alguns anos

Visão sobre a Bélgica Até o ano 2000 os estrangeiros aqui viviam menos problemas de integração tinham múltiplas possibilidades de se integrar na sociedade do que na frança por exemplo e dependendo das redes dos contatos você tem mais acesso aos políticos , ou ministros A luta comunitária Belga era menor e a econômica também. Se você não fizesse o que não devia seria aceito e passaria despercebido. Nos anos 70 a maioria dos exilados eram aceitos ou com vistos de asilo politico ou de estudantes , e acabavam se casando ou ficando A comunidade de exilados chilenos a partir de75 em geral pediu asilo politico mas também econômico e trouxe também depois a família;A de exilados brasileiros isso não aconteceu muito pois eram exilados de quadros políticos houve mesmo um arquiteto aqui que era auxiliar na época do Niemeyer, a maioria trabalhou aqui um tempo num trabalho ou outro e retornou ao Brasil sem pedir asilo. A orientação da embaixada brasileira na época era de não receber e não facilitar a vida dos exilados .uma vez chegaram a negar um passaporte brasileiro pra uma criança filho de um sindicalista exilado politico, nos denunciamos isso publicamente,pois a criança ficou apátrida algum tempo. Hoje existem talvez 5 ou 6 . Na época mesmo feito um filme referente a isso a experiencia dos brasileiros no exílio aqui na bélgica , a revista veja vinha entrevistar exilados , muitos políticos vieram aqui Brizola , o Roberto Freire, o Sebastião Arraes

Futuro e Brasil: Eu penso em voltar ao Brasil acho que ainda se tem muito a fazer lá ,algumas  questões que devem ser muito melhorada, mas precisaria de uma atividade qualquer, acho que no Brasil se precisa trabalhar a questão do civismo e da informação. Eu voltei uma vez, durante 6 meses mas por questões afetivas ligado a família retornei atualmente o máximo de tempo que fico por lá é em torno de um mês.

O que acha do projeto e da sua entrevista?Acho interessante a possibilidade de se dar expressão a todos que vivem (no exílio ) no exterior e de falar sobre o fenômeno de aculturação e de adaptação e integração a uma nova sociedade e da possibilidade de se falar de ser brasileiro. Uma sociedade multicultural e multirracial, cujo problema social ainda não foi resolvido pois a barreira intelectual do Brasil ainda continua elitizada, porem essa elite é bem preparada e capaz de ocupar vagas no mundo de ter uma boa representação mundial.

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